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O Futuro da Alimentação Mundial na Era do Wellness

O que raramente se fala sobre comer bem, de verdade.

*escrito pela Inês Lima, fundadora da Shotly, portuguesa mas que vive no brasil há 9 anos. Por isso, o português utilizado é uma mistura de português literal com um toque brasileiro.

A minha relação com a alimentação começou, durante muito tempo, em um lugar mais inconsciente do que propriamente informado. Até aos meus 16 anos, sempre associei o ato de comer a saciar a fome e aos costumes tradicionais portugueses. Entenda-se que fui educada pelos meus avós em Portugal, onde a mesa era tipicamente de uma casa portuguesa, com certeza: muito pão, arroz, batata, peixe, carne, a salada tradicional e a omnipresente sopa e fruta no final da refeição. Apesar de os meus avós não entenderem nada de nutrição na teoria, eles sabiam o que era bom de verdade. Conheciam a origem de praticamente tudo, sabiam onde comprar o peixe, a carne, os legumes, o azeite e até o pão, porque ambos tinham raízes ligadas à terra e à agricultura. E fazem isso até hoje.

Depois dessa fase, entrei na espiral das dietas e da restrição alimentar por motivações estéticas. Passei também por um curto período de tempo em que associei a comida à performance no esporte. Porém, a grande virada aconteceu em dois momentos. O primeiro deu-se quando fui morar sozinha e comecei a cozinhar - com uma ressalva para o ano em que vivi na Itália, aos 22 anos, onde naturalmente fiz e comi muita massa, risoto e tiramisu. Lembro-me vagamente do momento exato em que “virei do team dos saudáveis”, mas sei que foi algures quando regressei de Milão. Embora ainda de forma rasa e muito baseada no senso comum, comecei a cortar carboidratos, aumentar a proteína, comer muita salada e preferir alimentos orgânicos (mal sabia que a alface tinha tão poucos nutrientes).

Basicamente, ao longo de 15 anos de busca por essa "consciência alimentar", fui de um extremo ao outro: fui vegetariana, fui vegana, contabilizei gramas e eliminei grupos alimentares inteiros.

Passei da despreocupação juvenil para um rigor excessivo, alimentado por uma necessidade quase inconsciente de controle. E, apenas recentemente, compreendi que a nossa relação com a alimentação está profundamente ligada a traumas psicológicos. No meu caso, a restrição relacionava-se com a ferida da rejeição. Lembro-me, inclusive, de me chamarem de anoréxica. Apesar de nunca ter sido, sempre fui muito magra. Mas foi precisamente ao questionar o limite dessa rigidez que percebi que algo não batia certo.

Essa percepção levou-me a estudar nutrição funcional de forma autodidata e a reconstruir do zero a minha relação com a comida.

O segundo momento de virada aconteceu quando conheci o Márcio. Foi ele que me falou sobre a degradação do solo e o seu impacto direto na densidade nutricional dos alimentos, algo que eu desconhecia, apesar de tentar consumir produtos orgânicos e biológicos. Foi através dele também que cheguei ao universo dos superfoods: ingredientes com uma densidade nutricional extraordinária. Quanto mais eu aprendia, mais claro se tornava que o problema da alimentação vai muito além das nossas escolhas individuais. A alimentação cruza-se diretamente com fatores psicológicos, sociais e, inevitavelmente, ambientais.

Ao escrever este artigo e digerir estes temas, resgatei o sonho de, em 2030, estarmos nas Nações Unidas representados pela relevância e pelo impacto do nosso trabalho no futuro da alimentação.

O Paradoxo Global: Obesidade, Fome, Desperdício e Solos Exauridos

Olhar para o estado da alimentação mundial e moderna exige olhar para o estado do mundo, pois vivemos num momento histórico absolutamente paradoxal.

Enquanto a indústria do wellness fatura bilhões de dólares e ultrapassa o valor de mercado da indústria farmacêutica, a obesidade e as doenças crônicas não transmissíveis matam mais pessoas no mundo do que a fome. Ao mesmo tempo, cerca de um terço de toda a comida produzida no planeta é perdida ou vai para o lixo, sendo que 1/3 desse desperdício seria mais do que suficiente para erradicar a fome global.

Para agravar este cenário, mais de 58% dos solos agrícolas no mundo estão degradados, o que compromete diretamente a qualidade do que comemos. Fiquei chocada ao perceber a dimensão dessa depreciação: estudos mostram que, para obter a mesma quantidade de nutrientes que uma laranja nos fornecia há poucas décadas, hoje precisaríamos consumir cerca de 8 laranjas.

Foi ao compreender esta realidade que tive a dimensão da grandeza deste assunto. Além disso, junto com a minha trajetória dentro do yoga, percebi que existem várias formas de nos alimentarmos, ou seja, não nos alimentamos só de comida em si. Uma boa noite de sono, uma prática de respiração, um livro, uma conversa com uma amiga ou o próprio trabalho também nos nutrem. Desenvolvi esse ponto de vista de que alimento é muito mais do que aquilo que comemos: é tudo o que serve de fonte de energia. Obviamente, o papel do alimento como um conjunto de nutrientes essenciais não é substituído por essa abordagem mais holística. Contudo, foi ao olhar para este cenário mundial que entendi exatamente onde teria de estar o foco do meu trabalho.

A Shotly como Marca de Impacto

Quando criei a Shotly ao lado do Márcio, o nosso objetivo sempre foi construir uma marca de impacto que traduzisse toda esta complexidade num gesto diário simples: um shot. Uma dose concentrada de nutrientes que é usada há milhares de anos, de forma simples e natural, e que, ao ser introduzida no estilo de vida de forma consistente, aproxima as pessoas daquela relação ancestral em que o alimento é o remédio e o remédio é o alimento, como dizia Hipócrates, o Pai da Medicina.

A nossa visão é profunda porque o assunto assim o exige, mas a nossa abordagem é leve, descontraída e, acima de tudo, vivida com alegria. Não dá para negar a urgência de uma mudança cultural na forma como nos alimentamos e, consequentemente, cuidamos da nossa saúde.

Assim como a Red Bull criou um novo jeito de beber energia no século XX, a Shotly criou um novo jeito de beber saúde. ;)

A Agrofloresta como Inovação: Inovar Hoje para Nutrir o Amanhã

Foi com este propósito que decidimos plantar a nossa própria agrofloresta, um modelo agrícola regenerativo que atua na recuperação do solo através da biodiversidade, além de resgatar a prática ancestral de cultivar o próprio alimento. No último ano, plantamos 33.333 mudas de ingredientes essenciais como cúrcuma, gengibre e beterraba, integrados num ecossistema biodiverso com 23 espécies de árvores e plantas.

Achei curioso que o lema oficial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para o Dia Mundial da Alimentação deste ano, 2026, seja perentório: "Inovar hoje. Nutrir o amanhã".

Mas o que significa inovar no setor alimentar? Para a Shotly, inovar não é criar comida sintética ou com alimentos empobrecidos de nutrientes e super contaminados, e muito menos ultraprocessar ingredientes numa fábrica. A verdadeira inovação, na nossa visão, deveria começar pelo básico - não de uma forma cliché, mas porque realmente precisamos retornar à qualidade do alimento como princípio da saúde; às fórmulas limpas e funcionais que unem a ciência da nutrição funcional à sabedoria da terra - para não dizer, à confiança das marcas e nos rótulos quando um produto usa os claims “zero açúcar”, “natural”, etecetera, e na verdade não é nada disso. Por último, precisamos mesmo inovar na forma como plantamos a nossa comida. E, até à data, a tecnologia mais avançada do mundo é o  desenvolvimento e multiplicação de sistemas agroflorestais.

Já a nível individual, ou seja, no dia a dia de cada um de nós, acredito que a grande inovação é bem mais simples do que pensamos. Passa por coisas como:

  1. Prestar mais atenção à qualidade do que consumimos: desde o sal ao azeite, à água e ao próprio café. Quatro elementos transversais a qualquer alimentação e que fazem toda a diferença. (vale ler sobre isso)
  2. Cozinhar como ritual: voltar a tocar nos ingredientes, sentir os aromas, colocar energia e presença durante a preparação das refeições. Afinal, tudo é energia, e como tal, comemos também a energia de quem prepara. (#medo)
  3. Respeitar os ciclos naturais: dar preferência a alimentos da época, locais, cultivados em solos agroecológicos, podem até não ser orgânicos, mas sustentavelmente responsáveis. Além, claro, de orientarmos a também a alimentação pelo ritmo circadiano e funções biológicas. (fica para um próximo post)

Por tudo isto, neste Dia Mundial da Alimentação de 2026, o meu convite para você é o mesmo que fiz a mim mesma: fazer uma pausa e refletir sobre a sua relação com a comida. (Aproveite agora, esses 5 minutos após a leitura do post, prometo que é um tempo bem gasto).

E, claro, também quero convidar você a experimentar introduzir o ritual do shot na sua rotina durante um mês. Além do benefício direto para o seu corpo, este pequeno gesto serve de ponte para uma dimensão muito mais profunda de consumo e consciência alimentar. 

Como disse o tema oficial da primeira comemoração do Dia Mundial da Alimentação, em 1981, a comida vem primeiro. 

Que assim seja. Assim já é.

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